Como fazer o rastreamento de doenças em atenção primária


Fazer rastreamento em atenção primária não é o mesmo que diagnosticar uma doença.

Se uma pessoa chega ao atendimento apresentando sintomas e alguns exames são realizados, isso é um trabalho de diagnóstico e não de rastreamento.

Em linhas gerais, rastrear uma doença significa aplicar exames ou testes em pessoas saudáveis dentro de uma determinada população.

Para as operadoras de saúde, isso implica em garantir que o processo traga benefícios relevantes diante dos riscos decorrentes de falsos positivos ou negativos.

rastreamento em atenção primária

É importante lembrar que um resultado positivo no rastreamento não significa um diagnóstico fechado, pois estes exames geralmente selecionam indivíduos com maior probabilidade de desenvolver a doença investigada.

O positivo nesses casos serve como um sinal de alerta, devendo ser confirmado por um teste específico para a doença. Só assim é possível ter um diagnóstico definitivo.

Um exemplo é o rastreamento do câncer de mama. No caso de uma mamografia sugestiva de neoplasia, é necessário confirmar o diagnóstico fazendo uma biópsia e um exame anatomopatológico.

Veja a seguir como sua operadora pode trabalhar melhor os processos de rastreamento e diagnóstico precoce na atenção primária à saúde (APS).

Desvantagens do rastreamento oportunístico

Agora que já definimos as diferenças entre diagnóstico e rastreamento, é preciso estabelecer outra distinção importante.

O que difere um programa de rastreamento organizado daquilo que se convencionou chamar de “rastreamento oportunístico”?

Quando uma pessoa procura o serviço de atendimento primário da operadora por qualquer motivo e o profissional de saúde aproveita para rastrear alguma doença, isso caracteriza um rastreamento oportunístico.

É um modelo ainda muito adotado nos serviços de saúde, sejam eles da rede pública ou suplementar.

Contudo, além de ter pouco impacto sobre a morbidade e a mortalidade ligadas à doença rastreada, esse tipo de rastreamento implica em custos maiores para a operadora de saúde.

Por que criar programas de rastreamento?

Em primeiro lugar, por que os programas organizados permitem ao gestor ter um controle maior das ações e informações levantadas no processo de rastreamento.

No que se refere à redução dos índices de morbidade e mortalidade, a maior efetividade dos programas de rastreamento em atenção primária decorre do domínio maior que se tem dessas informações.

Além disso, o fato de que todos os passos ao longo dos níveis de atenção estão bem estabelecidos e descritos no programa facilita a execução das ações.

Há ainda a possibilidade de criar um sistema de avaliação percorrendo todos os passos do programa, o que permite ajustar permanente os detalhes operacionais do rastreamento.

Primeiro rastrear e depois diagnosticar

Todo beneficiário que atinge a faixa etária que o habilita ao programa deve ser convidado a participar. E todos aqueles que participarem do rastreamento devem ser acompanhados ao longo de toda a duração do programa.

Por isso, deve-se buscar rastrear as condições que comprovadamente tenham evidência e grau de recomendação favorável a uma intervenção.

E mais: é preciso garantir o tratamento da condição rastreada.

Afinal, não faz sentido investir no rastreamento se a sua operadora não puder oferecer em seguida um diagnóstico definitivo e todas as condições para tratar a doença.

A disponibilidade desses serviços logo após um resultado positivo, bem como a avaliação e controle da qualidade dos laboratórios, devem fazer parte de todo programa de rastreamento em atenção primária.

Outro detalhe importante:

Para garantir a eficácia de um programa desse tipo, é fundamental garantir o rastreamento da maioria da população suscetível. Caso contrário não haverá uma redução significativa nos indicadores de morbimortalidade.

Lembre-se de que é necessário rastrear um grande número de pessoas saudáveis e assintomáticas para conseguir detectar alguns pacientes com a condição pesquisada.

Sem uma estratégia de saúde populacional por trás do rastreamento, o programa não conseguirá atingir os resultados a que se propõe.

Critérios para criar um programa de rastreamento

De acordo com as orientações do Ministério da Saúde, para implantar programas de rastreamento em atenção primária é necessário que o problema clínico a ser rastreado atenda aos seguintes critérios:

  1. A doença deve representar um importante problema de saúde pública que seja relevante para a população, levando em consideração os conceitos de magnitude, transcendência e vulnerabilidade;
  2. A história natural da doença ou do problema clínico deve ser bem conhecida;
  3. Deve existir estágio pré-clínico (assintomático) bem definido, durante o qual a doença possa ser diagnosticada;
  4. O benefício da detecção e do tratamento precoce com o rastreamento deve ser maior do que se a condição fosse tratada no momento habitual de diagnóstico;
  5. Os exames que detectam a condição clínica no estágio assintomático devem estar disponíveis, aceitáveis e confiáveis;
  6. O custo do rastreamento e tratamento de uma condição clínica deve ser razoável e compatível com o orçamento destinado ao sistema de saúde como um todo;
  7. O rastreamento deve ser um processo contínuo e sistemático.

Quatro aspectos de um programa de rastreamento eficaz

Ainda segundo as diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Saúde, existem quatro aspectos fundamentais que devem ser observados pelo gestor responsável por um programa de rastreamento em atenção primária.

Confira a seguir como eles são descritos no Caderno de Atenção Primária n29, publicação inteiramente dedicada à questão do rastreamento:

Acesso

O rastreamento, quando apropriado e estabelecido em um programa organizado, não constitui modalidade diagnóstica nem assistencial, e sim um direito assegurado do cidadão a uma atenção à saúde de qualidade.

Isso significa que ele não precisa de requisição de um profissional médico para a realização do teste ou procedimento de rastreamento, visto que não se trata de diagnose de um quadro clínico, mas sim de critérios estabelecidos que o habilitem a participar do programa, por exemplo, a vacinação, com suas normatizações de idade e periodicidade.

Agilidade

O participante não precisa entrar na rotina assistencial dos serviços de atendimento à saúde (de APS) para a realização do rastreamento nem para o recebimento do resultado, a não ser que seja necessário.

É o equivalente ao usuário que vem se vacinar: cumpridos os critérios técnicos estabelecidos, os serviços de APS devem esforçar-se ao máximo para prover-lhe a vacinação rapidamente, sem agendamentos ou dificuldades burocráticas.

Melhores evidências

O rastreamento enquanto programa deve ser oferecido à população somente quando comprovado que seus benefícios superam amplamente os riscos e danos, dessa forma, permitindo detecção precoce e tratamento de certas doenças. Entretanto, a adesão ao programa deve ser voluntária e entendida como direito dos cidadãos.

Informação

O participante deve receber orientação quanto ao significado, riscos e benefícios do rastreamento, bem como sobre as peculiaridades e rotinas do programa e dos procedimentos.

No Brasil, temos um bom exemplo nos centros de orientação sorológica para rastreamento de HIV por procura espontânea com aconselhamento pré e pós-teste a respeito da doença. No caso do citopatológico, as mulheres devem receber as orientações de praxe sobre a frequência de rastreamento, sobre os procedimentos, os passos posteriores (recebimento do resultado etc.).

Voltando ao exemplo da vacinação, a pessoa vacinada ou seu responsável deve ser orientado sobre os procedimentos, efeitos adversos, objetivos, periodicidade e assim por diante.

Garantindo a qualidade do rastreamento em atenção primária

Modelos organizados de rastreamento permitem aos gestores avaliar o seu real impacto sobre a saúde da população e ajustar processos a partir de dados reais.

Isso permite aprimorar a qualidade do rastreamento à medida em que o programa vai sendo executado.

A decisão de desenvolver um programa de rastreamento populacional deve considerar critérios clínicos e técnicos, apresentados por meio de provas científicas e medicina baseada em evidências.

Quando isso não ocorre, há sempre o risco de estar alocando recursos de forma equivocada, o que não traz benefícios à população atendida e nem ao caixa da operadora.

Definir quais são os procedimentos de rastreamento justificáveis e como eles devem ser avaliados é um tema controverso.

Para a grande maioria das doenças rastreadas é possível encontrar divergências nos graus de recomendação, dependendo da fonte consultada.

Por isso, o gestor deve preocupar-se em eleger as condições e doenças que preencham os critérios clínicos e epidemiológicos para o rastreamento, além de buscar uma relação custo-efetividade positiva para a operadora de saúde.

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