Cuidados paliativos: como a medicina preventiva pode dar mais qualidade de vida a pacientes terminais


cuidados paliativos na medicina preventiva

Já falamos aqui sobre como obter resultados nos três níveis da medicina preventiva, que englobam desde a prevenção feita antes da doença se instalar até os cuidados para recuperar o paciente pós-tratamento. Mas há ainda um quarto nível de prevenção. Ele envolve os cuidados paliativos, ou seja, as ações tomadas pela equipe médica diante de doenças ou estados considerados terminais.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define os cuidados paliativos como qualquer abordagem ou tratamento capaz de melhorar a qualidade de vida dos pacientes e suas famílias diante de doenças que ameaçam a vida. No âmbito da medicina preventiva, o que se busca é prevenir e aliviar do sofrimento por meio da identificação precoce, avaliação e tratamento da dor e de outros problemas físicos e psicossociais.

Veja o que diz o Dr. Lucas Santor Zambom, diretor científico do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente, sobre o assunto

“A verdade é que a gente palia muito mais do que cura na medicina. Sabe hipertensão e diabetes, as doenças mais comuns do mundo? A gente só controla na imensa maioria dos casos. Lentifica a progressão. Dúzias de doenças são assim. Apenas controlamos, não curamos. (…) Em última análise, paliamos. E não há nenhuma vergonha nisso. (…) Por isso, precisamos perder o preconceito com a questão dos cuidados paliativos. Paliar é um critério de qualidade. E estou pensando nesse contexto mais amplo, que vai de promover uma boa morte a manter doenças controladas, mesmo sem cura.”

Se você é gestor de um plano de saúde, precisa pensar nisso. Sua equipe já tem diretrizes bem definidas para coordenar os cuidados paliativos prestados aos beneficiários no fim da vida?

Continue lendo este artigo e veja como é possível otimizar esse tipo de serviço e transformá-lo em um diferencial para sua operadora.

O que é a prevenção quaternária?

Os cuidados paliativos se enquadram na definição de prevenção quaternária, um aspecto que ainda é pouco explorado pelos gestores de medicina preventiva no Brasil. Esse nível de prevenção tem como foco evitar ou atenuar o excesso de intervencionismo no tratamento da doença.

Nos casos de câncer em estágio avançado, por exemplo, os cuidados paliativos envolvem a prevenção e o alívio do sofrimento dos próprios pacientes e de seus familiares. Isso inclui a detecção e o tratando dos sintomas relacionados à evolução da doença, como dores intensas e falta de ar.

Outro fator importante nas ações de prevenção quaternária é trabalhar a conscientização e a informação do paciente, para que ele possa tomar decisões autônomas a respeito dos métodos diagnósticos ou terapêuticos propostos. O objetivo é que ele conheça as vantagens e os inconvenientes de cada opção disponível, de forma clara e sem gerar falsas expectativas.

Por que investir em cuidados paliativos?

Segundo a avaliação de especialistas, o cuidado paliativo é uma forma inovadora de assistência à saúde que vem ganhando espaço no Brasil principalmente nos últimos dez anos. Isso se deve, em parte, ao envelhecimento progressivo da população brasileira, já que o aumento da longevidade nos torna mais propensos a sofrer de doenças crônico-degenerativas.

Acontece que grande parte dos idosos acometidos por doenças de alta gravidade não consegue se beneficiar dos recursos mais modernos à disposição da medicina. E, além disso, nos casos mais avançados dessas doenças, qualquer processo curativo aplicado pelos médicos tem resultado quase nulo. Por isso é tão importante investir em cuidados paliativos.

Segundo registros da OMS, temos cerca de um milhão de óbitos por ano no Brasil e 650 mil deles são decorrentes do agravamento de doenças crônicas. Algo em torno de 70% dessas mortes ocorrem nos hospitais, na grande maioria dos casos em unidades de terapia intensiva.

O problema é que a maioria das unidades hospitalares no país não possui uma diretriz sobre como cuidar de pacientes com um quadro terminal. Sendo assim, o aumento do tempo de vida do brasileiro não tem sido acompanhado pela melhoria da qualidade de vida na velhice ou após processos de adoecimento.

Diante dessa realidade, torna-se fundamental focar no fortalecimento das ações de cuidado paliativo dentro dos sistemas de saúde público e privado.

Uma mudança em curso no Brasil

Em 2017, o Brasil deu um passo significativo para o reconhecimento da importância dos cuidados paliativos no sistema de saúde suplementar, quando uma consulta pública abriu o debate para a inclusão dos cuidados paliativos entre os procedimentos reconhecidos pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Também neste ano, outras entidades médicas passaram a representar pela formalização da especialidade.

Hoje temos atuando no país algo em torno de 100 equipes especializadas em cuidados paliativos. Mas, segundo avaliação da Organização Mundial da Saúde, é preciso muito mais, pois esta especialidade ainda está menos desenvolvida aqui do que em outros países latino-americanos.

O Brasil vem consolidando formalmente os cuidados paliativos no âmbito do SUS por meio de portarias e documentos, emitidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária e pelo próprio Ministério da Saúde. Aliado ao avanço do tema no âmbito da saúde suplementar, isso vai trazer um importante avanço na assistência de milhares de pessoas que sofrem de doenças sem perspectiva de cura.

Montando uma estrutura de prevenção quaternária

A prática dos cuidados paliativos nas operadoras de saúde é um trabalho necessariamente de caráter multidisciplinar, que deve envolver médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, assistentes sociais, psicólogos, farmacêuticos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, nutricionistas e até mesmo assistentes espirituais de caráter ecumênico ou da religião escolhida pelo paciente.

A OMS recomenda iniciar o tratamento paliativo o mais precocemente possível, concomitantemente ao processo curativo, utilizando-se todos os esforços necessários para melhor compreensão dos sintomas.

A prevenção e o controle desses sintomas devem ser o cerne da assistência em cuidados paliativos. Ainda que existam especificidades de cada área profissional, todos que atuam devem ser capazes de identificá-los e conhecer técnicas básicas de manejo e/ou seus encaminhamentos. Escuta, apoio e orientação aos familiares são essenciais para o sucesso destas estratégias.

Os cuidados paliativos podem ser providos em diferentes modelos: hospitais exclusivos (conhecidos como hospices em inglês), enfermarias em hospitais gerais, equipe interconsultora, ambulatório, assistência domiciliar, hospedarias e hospital-dia.

Os especialistas afirmam que não há um modelo único e ideal para a prestação dos cuidados, que devem ser determinados com base nas necessidades e recursos locais. Entretanto, a existência de equipes de referência e de equipes de apoio ou suporte é fundamental.

4 dicas para otimizar a aplicação de cuidados paliativos

De acordo com o Dr. Ricardo Tavares de Carvalho, diretor científico da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, existem alguns cuidados que podem ajudar na melhoria dos serviços de prevenção quaternária na sua operadora de saúde. Veja quais são eles:

1. Conheça a pessoa que vai ser cuidada

Tenha interesse legítimo pela pessoa que está sendo assistida, isso fará toda a diferença no resultado do tratamento. Perguntar o que a pessoa gosta, saber de seus interesses e experiências, poderá fornecer dicas de como tratá-la melhor.

2. Ouça sempre

A correria da rotina hospitalar muitas vezes faz com que o costume de ouvir simplesmente se perca em meio aos compromissos, mas ele é extremamente importante. É preciso ouvir o que as pessoas têm a dizer e entender quais são os sofrimentos que elas estão trazendo.

3. Esteja disponível

Quando um paciente ou familiar precisa de ajuda, é importante que ele possa ser atendido. Obviamente, não é necessário fornecer contatos pessoais, mas ao menos algum telefone para que o assistido possa acessá-lo, como telefone do hospital para recados.

4. Desmistifique o uso de opióides

Os analgésicos muitas vezes são considerados vilões devido ao vício que podem causar. Mas isso ocorre em apenas 1,5% dos casos, segundo estudos. Quando se tem mais conhecimento sobre esse tipo de medicamento, é possível receitá-lo da forma correta e ser efetivo no controle da dor. Consequentemente, há um ganho na qualidade de vida do paciente.

Diretrizes para orientar sua equipe

Para encerrar, aí vão algumas diretrizes para ajudá-lo a orientar a aplicação dos cuidados paliativos na sua operadora de saúde. Elas foram definidas por um dos maiores especialistas mundiais no assunto, o médico norte-americano Ira Byock. Confira:

  • A morte deve ser compreendida como um processo natural, parte da vida, e a qualidade de vida é o principal objetivo clínico;
  • Os cuidados paliativos não antecipam a morte, nem prolongam o processo de morrer;
  • A família deve ser cuidada com tanto empenho como o doente. Paciente e familiares formam a chamada unidade de cuidados;
  • O controle de sintomas é um objetivo fundamental da assistência. Os sintomas devem ser rotineiramente avaliados e efetivamente manejados;
  • As decisões sobre os tratamentos médicos devem ser feitas de maneira ética. Pacientes e familiares têm direito a informações acuradas sobre sua condição e opções de tratamento; as decisões devem ser tomadas de maneira compartilhada, respeitando-se valores étnicos e culturais;
  • Cuidados paliativos são necessariamente providos por uma equipe interdisciplinar;
  • A fragmentação da saúde tem sido uma consequência da sofisticação da medicina moderna. Em contraposição, os cuidados paliativos englobam, ainda, a coordenação dos cuidados e provêm a continuidade da assistência;
  • A experiência do adoecimento deve ser compreendida de uma maneira global e, portanto, os aspectos espirituais também são incorporados na promoção do cuidado;
  • A assistência não se encerra com a morte do paciente, mas se estende no apoio ao luto da família, pelo período que for necessário.

Para saber mais

Agora que você já sabe da importância de investir na otimização dos cuidados paliativos na sua operadora de saúde, busque se informar ainda mais. Recomendamos a leitura de dois materiais bem interessantes que nos ajudaram a construir este artigo:

O primeiro é um artigo de 2016 das pesquisadoras Marília Bense Othero e Ana Luisa Zaniboni Gomes, da Universidade de São Paulo (USP), que traça um panorama da evolução dos cuidados preventivos no Brasil e no mundo.

Outra fonte interessante é uma apresentação da Dra. Germana Hunes, do Instituto Nacional de Câncer, que destaca alguns aspectos fundamentais da aplicação de cuidados paliativos na atenção oncológica.

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